Este texto fala de mães e de mulheres, mas as informações valem também para homens trans e pessoas não binárias que gestam.
O que pode acontecer
Baby blues (tristeza pós-parto)
É muito comum e passageiro. Aparecem tristeza, choro fácil, irritabilidade, ansiedade, insônia, cansaço, dificuldade de concentração e oscilações de humor. Os sintomas começam dois a três dias após o parto e melhoram sozinhos em até duas semanas [1].
Depressão perinatal
Os sintomas são os mesmos da depressão em outras fases da vida, mas duram pelo menos duas semanas e atrapalham o dia a dia [2]. Alguns sinais que merecem atenção no pós-parto: preocupação excessiva com a saúde do bebê, dúvida constante sobre a própria capacidade de cuidar dele, desânimo, falta de interesse pelo bebê e pouca resposta ao apoio de quem está por perto [3].
Pensamentos assustadores de que algo ruim possa acontecer com o bebê, ou até de machucá-lo, podem surgir na depressão e no TOC do pós-parto. Em geral, eles são indesejados, causam grande angústia e não vêm acompanhados de intenção de agir [4,5]. Contar isso ao profissional de saúde é importante e não é motivo de vergonha: é a forma de receber o cuidado certo.
Outras condições
A ansiedade é frequente nesse período e muitas vezes acompanha a depressão [3]. O estresse pós-traumático após o parto atinge cerca de 4 em cada 100 mulheres e chega a quase 1 em cada 5 em grupos de risco, como após partos complicados ou em quem já viveu violência [6].
Quão comum é
Cerca de 1 em cada 7 mulheres (14%) tem depressão no pós-parto, com taxas mais altas em países de baixa e média renda [9]. Em cerca de metade dos casos, os sintomas já tinham começado antes ou durante a gestação [10]. Sem tratamento adequado, de 30 a 50 em cada 100 episódios duram um ano ou mais [11].
Ter tido depressão, ansiedade ou transtorno bipolar antes aumenta o risco [3]. No transtorno bipolar, os episódios de humor voltam depois de mais de 1 em cada 3 partos [12], e o risco de psicose pós-parto chega a 1 em cada 4 partos [13]. Interromper os medicamentos durante a gestação aumenta ainda mais esse risco [14]. Por isso, quem tem transtorno bipolar deve planejar a gestação junto com o psiquiatra e nunca suspender o tratamento por conta própria.
Metade das mulheres com psicose pós-parto não tinha nenhuma história psiquiátrica anterior [8].
Por que tratar faz diferença para o bebê
A depressão no pós-parto pode dificultar a amamentação, o vínculo com o bebê e os cuidados do dia a dia, e está associada a dificuldades no desenvolvimento emocional, cognitivo e de linguagem das crianças [15]. A boa notícia é que parte desses efeitos depende de fatores que podem mudar, como a duração da depressão. Tratar a mãe também é cuidar do bebê.
Como é feita a avaliação
O diagnóstico é feito na conversa clínica, com os mesmos critérios da depressão em outras fases [2]. Como sono, energia e apetite mudam naturalmente com um recém-nascido, a avaliação dá mais peso a sinais como tristeza, perda de prazer, culpa, dificuldade de concentração e pensamentos de morte [3].
O questionário mais usado para rastreamento é a Escala de Depressão Pós-Parto de Edimburgo, com 10 perguntas sobre a última semana [16]. O PHQ-9, que você encontra no artigo sobre depressão, também pode ser usado. Uma pontuação alta indica que vale buscar avaliação, mas não fecha o diagnóstico.
Como é o tratamento
O plano é individual e considera a gravidade, a história anterior, a gestação ou a amamentação e a preferência de cada pessoa [17,3].
- Nos quadros leves a moderados, a psicoterapia é a base do tratamento.
- Nos moderados a graves, os medicamentos estão indicados. Há opções que podem ser usadas na gestação e durante a amamentação, e a escolha é feita em conjunto, pesando os riscos de tratar e os de não tratar.
- Rede de apoio, proteção do sono e divisão dos cuidados com o bebê fazem parte do tratamento.
Para quem já teve depressão, transtorno bipolar ou psicose, o ideal é conversar com o psiquiatra antes de engravidar ou logo no início da gestação, para montar um plano de prevenção [17].
Quando procurar ajuda
Procure avaliação se a tristeza, a ansiedade ou a falta de prazer passarem de duas semanas, se pensamentos assustadores estiverem trazendo sofrimento ou se você se sentir incapaz de cuidar de si ou do bebê. Se surgirem insônia intensa, confusão ou ideias fora da realidade, busque atendimento de emergência.
Texto informativo, elaborado a partir de revisões atualizadas da literatura e das diretrizes clínicas citadas nas referências. Não substitui a avaliação individual com um profissional de saúde.
Referências
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