DepressãoQuando a tristeza deixa de ser passageira

A depressão é uma doença frequente, que mexe com o sono, a energia, o apetite e a vontade de fazer as coisas. Ela tem tratamento, e reconhecer os sinais é o primeiro passo.

Dra. Anna Martha Vaitses Fontanari · Psiquiatra · Leitura de 6 min

O que é

A palavra "depressão" tem vários sentidos. No dia a dia, pode descrever uma tristeza passageira, que às vezes é até uma reação esperada diante de perdas e dificuldades. Na medicina, porém, ela também dá nome a uma doença: o transtorno depressivo maior, uma condição frequente e que pode trazer muito prejuízo à vida da pessoa [1].

Episódios de depressão também podem aparecer em outras condições, como o transtorno bipolar. Este texto fala da depressão que ocorre sozinha, também chamada de depressão unipolar.

Quão comum é

Cerca de 12 em cada 100 pessoas terão depressão em algum momento da vida [2]. No mundo, ela é a segunda maior causa de anos vividos com incapacidade [3].

Aqui no Sul, os números chamam atenção. Segundo a pesquisa Vigitel, do Ministério da Saúde, Porto Alegre foi a capital brasileira com mais pessoas vivendo com depressão: cerca de 17 em cada 100 moradores (17,5%). Em Florianópolis, a proporção foi de 17,1% [4].

A depressão é duas vezes mais frequente em mulheres do que em homens [5]. Pode começar em qualquer idade, mas costuma ter dois picos de início, por volta dos 20 e dos 50 anos [6,7]. Adultos de meia-idade e pessoas idosas, entre 55 e 74 anos, estão entre os mais atingidos [8].

Crianças e adolescentes também têm depressão. Ela atinge de 1 a 2 em cada 100 crianças antes da puberdade e cerca de 5 em cada 100 adolescentes [9]. Até os 16 anos, cerca de 12% das meninas e 7% dos meninos já terão tido um episódio, e um em cada quatro episódios de depressão começa antes dos 19 anos [10]. Quando começa cedo, a depressão tende a voltar mais vezes e a trazer mais prejuízos para os estudos, o trabalho e a qualidade de vida [11–13]. Entre jovens de 10 a 24 anos, é a doença que mais causa incapacidade [14].

Alguns fatores aumentam o risco: passar por estresse intenso, ter vivido experiências traumáticas, ter pais, irmãos ou filhos com depressão e já ter tido sintomas depressivos antes [15–17].

Como se manifesta

Os dois sinais centrais são o humor deprimido (sentir-se triste, vazio ou sem esperança) e a anedonia, que é a perda do interesse ou do prazer em coisas que antes eram agradáveis. Para o diagnóstico, pelo menos um deles precisa estar presente por no mínimo duas semanas, junto com a maioria destes sintomas [16]:

  • dormir mal ou dormir demais;
  • mudança no apetite ou no peso;
  • sensação de lentidão ou, ao contrário, de agitação;
  • cansaço e falta de energia;
  • dificuldade de concentração;
  • sentimentos de inutilidade ou de culpa;
  • pensamentos frequentes sobre morte ou suicídio.
Os dois sinais centrais da depressão, humor deprimido e anedonia, no centro, cercados pelos outros sintomas: dormir mal ou demais, mudança no apetite ou no peso, lentidão ou agitação, cansaço e falta de energia, dificuldade de concentração, sentimentos de inutilidade ou culpa e pensamentos de morte ou suicídio.HumordeprimidoAnedoniaSINAIS CENTRAISDormir malou dormir demaisMudança no apetiteou no pesoLentidãoou agitaçãoCansaço efalta de energiaDificuldade deconcentraçãoSentimentos deinutilidade ou culpaPensamentos demorte ou suicídio
Para o diagnóstico, pelo menos um dos sinais centrais precisa estar presente por no mínimo duas semanas, junto com a maioria dos demais sintomas.

Além disso, os sintomas precisam atrapalhar o trabalho, os estudos ou as relações [16].

Como é feito o diagnóstico

O diagnóstico é feito por meio da conversa clínica [18]. O profissional também verifica se os sintomas não são causados por uma substância (droga ou medicamento) ou por outra doença, como o hipotireoidismo [16]. Questionários ajudam nessa avaliação. Um dos mais usados, o PHQ-9, foi validado em um estudo com a população de Pelotas, aqui no Rio Grande do Sul [19].

Questionário PHQ-9 [19,38]Durante as últimas duas semanas, com que frequência você foi incomodado(a) por algum dos problemas abaixo?
ProblemaNenhuma vezVários diasMais da metade dos diasQuase todos os dias
1.Pouco interesse ou pouco prazer em fazer as coisas0123
2.Se sentir “para baixo”, deprimido(a) ou sem perspectiva0123
3.Dificuldade para pegar no sono ou permanecer dormindo, ou dormir mais do que de costume0123
4.Se sentir cansado(a) ou com pouca energia0123
5.Falta de apetite ou comer demais0123
6.Se sentir mal consigo mesmo(a), ou achar que é um fracasso ou que decepcionou sua família ou a si mesmo(a)0123
7.Dificuldade para se concentrar nas coisas, como ler o jornal ou ver televisão0123
8.Lentidão para se movimentar ou falar, a ponto de outras pessoas perceberem; ou o oposto: estar tão agitado(a) ou inquieto(a) que fica andando de um lado para o outro muito mais do que de costume0123
9.Pensar em se ferir de alguma maneira ou que seria melhor estar morto(a)0123

Some os pontos das nove perguntas (total de 0 a 27). Em geral, a pontuação é interpretada assim [38]:

0–4Sintomas mínimos
5–9Leves
10–14Moderados
15–19Moderadamente graves
20–27Graves

No estudo brasileiro, uma pontuação de 9 ou mais foi o melhor ponto de corte para indicar possível depressão [19]. O PHQ-9 é uma ferramenta de rastreamento: uma pontuação alta indica que vale procurar avaliação, mas não fecha o diagnóstico, e uma pontuação baixa não descarta sofrimento que mereça cuidado.

O acompanhamento ao longo do tempo é importante. Em um grande estudo dinamarquês, parte das pessoas que inicialmente receberam diagnóstico de depressão teve o diagnóstico revisto com o passar dos anos, por exemplo para transtorno bipolar [20]. Isso acontece, em parte, porque muitas pessoas com transtorno bipolar começam a doença com um episódio de depressão [21].

Como é o tratamento

O objetivo do tratamento é a remissão: que os sintomas desapareçam e a pessoa volte a funcionar como antes [22,23].

Nos casos leves, as diretrizes internacionais não recomendam o uso rotineiro de antidepressivos, porque a relação entre riscos e benefícios não é boa. Nesses casos, entram a psicoeducação (entender o que está acontecendo) e a psicoterapia [24–26]. Há exceções, como em quem já teve depressão moderada ou grave, ou quando os sintomas leves duram muito tempo ou não melhoram com outras abordagens [25,26].

Nos quadros moderados e graves, o tratamento com medicamento está indicado [27]. Existem muitos antidepressivos eficazes, de diferentes tipos [28]. A escolha leva em conta os efeitos colaterais e as possíveis interações com outros remédios, de forma individualizada, e antidepressivos de primeira escolha estão disponíveis no SUS [29].

Abordagens sem medicamento também mostraram benefício em estudos, como a terapia cognitivo-comportamental e o exercício físico [30].

Antes de concluir que um tratamento não funcionou, ele precisa ser usado na dose adequada e por tempo suficiente. Se não houver melhora, o médico pode ajustar a dose, trocar o medicamento ou associar outro, como o lítio, também disponível no SUS [27,29].

A depressão pode voltar

A depressão costuma voltar. Depois de um episódio, mais de 40 em cada 100 pessoas têm um novo episódio em dois anos. Depois de dois episódios, o risco de voltar em cinco anos chega a cerca de 75% [31]. O risco é maior em quem já teve vários episódios, ficou com sintomas residuais, teve depressão grave ou segue exposto aos fatores que desencadearam o quadro, como estresse contínuo, isolamento ou desemprego [32]. Por isso, a decisão de manter ou suspender o tratamento deve ser revista periodicamente com o médico.

Os 5 Rs da depressão [39,40]Como o tratamento costuma evoluir e por que ele continua depois da melhora.
Curso da depressão e os cinco Rs. Ao longo do tempo, os sintomas pioram até o episódio depressivo; com o tratamento, há resposta, depois remissão. Se os sintomas voltam na fase de continuação, é uma recaída. Se a remissão se mantém, há recuperação. Um novo episódio depois disso é uma recorrência. Fases do tratamento: aguda, continuação e manutenção.EpisódioSintomasBem-estarTempoGravidadeFase agudaContinuaçãoManutenção↑ início do tratamento1Resposta2Remissão3Recaída4Recuperação5Recorrência
Resposta: os sintomas diminuem pelo menos pela metade.
Remissão: os sintomas praticamente desaparecem.
Recaída: os sintomas voltam antes da recuperação, ainda no mesmo episódio.
Recuperação: a remissão se mantém por alguns meses e o episódio é considerado encerrado.
Recorrência: surge um novo episódio depois da recuperação.

Manter o tratamento nas fases de continuação e manutenção, conforme a orientação médica, reduz o risco de recaída e de recorrência.

Quando procurar ajuda

Procure avaliação se a tristeza ou a falta de prazer durarem mais de duas semanas e estiverem atrapalhando sua vida. Se surgirem pensamentos sobre morte ou suicídio, busque ajuda imediatamente.

Texto informativo, adaptado das notas técnicas que escrevi para o NatJus do TelessaúdeRS e do Protocolo Clínico Estadual de Transtorno Depressivo Maior. Não substitui a avaliação individual com um profissional de saúde.

Referências

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  2. Kessler RC, Ormel J, Petukhova M, McLaughlin KA, Green JG, Russo LJ, et al. Development of lifetime comorbidity in the World Health Organization world mental health surveys. Arch Gen Psychiatry. 2011;68(1):90–100.
  3. GBD 2019 Mental Disorders Collaborators. Global, regional, and national burden of 12 mental disorders in 204 countries and territories, 1990–2019: a systematic analysis for the Global Burden of Disease Study 2019. Lancet Psychiatry. 2022;9:137–50.
  4. Brasil. Ministério da Saúde. Vigitel Brasil 2021: vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; 2022. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/publicacoes-svs/vigitel/vigitel-brasil-2021-estimativas-sobre-frequencia-e-distribuicao-sociodemografica-de-fatores-de-risco-e-protecao-para-doencas-cronicas
  5. Kessler RC, Berglund P, Demler O, et al. The epidemiology of major depressive disorder: results from the National Comorbidity Survey Replication (NCS-R). JAMA. 2003;289:3095–105.
  6. Burke KC, Burke JD, Regier DA, et al. Age at onset of selected mental disorders in five community populations. Arch Gen Psychiatry. 1990;47:511–8.
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  9. Costello EJ, Mustillo S, Erkanli A, et al. Prevalence and development of psychiatric disorders in childhood and adolescence. Arch Gen Psychiatry. 2003;60:837–44.
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