Saúde mental na perimenopausa e na menopausaO humor também muda

A transição para a menopausa não mexe só com o ciclo menstrual. Ela é um período de maior vulnerabilidade para o humor, o sono e a ansiedade, e esses sintomas têm tratamento.

Dra. Anna Martha Vaitses Fontanari · Psiquiatra · Leitura de 4 min

Este texto fala de mulheres, mas as mesmas mudanças podem acontecer com homens trans e pessoas não binárias que têm ovários, conforme o uso ou não de hormônios.

O que é

A menopausa é definida depois de 12 meses seguidos sem menstruação, sem outra causa que explique. Ela acontece, em média, por volta dos 51 anos [1]. A perimenopausa, ou transição menopausal, é o período anterior, que pode durar alguns anos. Nela, os ciclos ficam irregulares, os hormônios oscilam e surgem sintomas como as ondas de calor [1].

Por que o humor muda

O risco de um primeiro episódio de depressão aumenta durante a transição para a menopausa. Em um estudo que acompanhou mulheres por oito anos, a depressão foi 2,5 vezes mais frequente nessa fase do que antes dela [2]. O risco é ainda maior para quem já teve depressão e volta a cair no início da pós-menopausa [2–4].

Vários fatores se somam: as oscilações hormonais, as ondas de calor noturnas que interrompem o sono e as mudanças de vida comuns nessa idade [4]. Ondas de calor, ansiedade e depressão costumam andar juntas [5].

Como se manifesta

  • Humor: tristeza, irritabilidade, oscilações de humor, perda de prazer e ansiedade [4].
  • Ondas de calor: o sintoma mais típico, presente em até 8 de cada 10 mulheres [6].
  • Sono: a dificuldade para dormir atinge de 32 a 40 em cada 100 mulheres no início da transição e de 38 a 46 no final dela [6].
  • Memória e concentração: esquecimentos, dificuldade de achar palavras e a chamada “névoa mental”. Esses sintomas costumam ser passageiros [7].

Como é feita a avaliação

Depois dos 45 anos, a perimenopausa é identificada pela mudança no intervalo entre as menstruações, com ou sem sintomas. Na maioria dos casos, não é preciso fazer exame de sangue para confirmar [1].

A depressão é avaliada da mesma forma que em outras fases da vida, por meio da conversa clínica e de questionários como o PHQ-9, que você encontra no artigo sobre depressão [4]. Também é importante investigar outras causas para os sintomas, como alterações da tireoide e distúrbios do sono.

Como é o tratamento

O tratamento depende do sintoma que mais incomoda e é construído em conjunto, muitas vezes com a ginecologista [4,8]:

  • Quando a depressão é o principal problema e as ondas de calor são leves, o primeiro passo costuma ser um antidepressivo, como os ISRS.
  • Quando as ondas de calor predominam e os sintomas de humor são leves, a terapia hormonal pode ser a primeira opção.
  • Quando os dois são intensos, os tratamentos podem ser combinados.

O estrogênio melhora o humor na perimenopausa, mas não mostrou o mesmo efeito depois da menopausa [4,9]. A terapia cognitivo-comportamental também pode ajudar [4]. Atividade física, meditação e ioga são opções para sintomas leves, embora as evidências ainda sejam limitadas [4].

A terapia hormonal tem contraindicações, como história de câncer de mama, doença coronariana, trombose ou AVC. Para mulheres saudáveis, com menos de 60 anos ou até 10 anos depois da menopausa, o risco absoluto de complicações é baixo. A decisão é individual e envolve avaliar o risco cardiovascular e de câncer de mama [8].

Quando procurar ajuda

Procure avaliação se a tristeza, a irritabilidade, a ansiedade ou a falta de sono estiverem atrapalhando o trabalho, as relações ou o prazer nas coisas, especialmente se você já teve depressão antes. Esses sintomas não são “coisa da idade” que precisa ser suportada.

Texto informativo, elaborado a partir de revisões atualizadas da literatura e das diretrizes clínicas citadas nas referências. Não substitui a avaliação individual com um profissional de saúde.

Referências

  1. Harlow SD, Gass M, Hall JE, et al. Executive summary of the Stages of Reproductive Aging Workshop + 10: addressing the unfinished agenda of staging reproductive aging. J Clin Endocrinol Metab. 2012;97:1159–68.
  2. Freeman EW, Sammel MD, Lin H, Nelson DB. Associations of hormones and menopausal status with depressed mood in women with no history of depression. Arch Gen Psychiatry. 2006;63:375–82.
  3. Cohen LS, Soares CN, Vitonis AF, et al. Risk for new onset of depression during the menopausal transition: the Harvard study of moods and cycles. Arch Gen Psychiatry. 2006;63:385–90.
  4. Maki PM, Kornstein SG, Joffe H, et al. Guidelines for the evaluation and treatment of perimenopausal depression: summary and recommendations. Menopause. 2018;25:1069–85.
  5. Juang KD, Wang SJ, Lu SR, et al. Hot flashes are associated with psychological symptoms of anxiety and depression in peri- and post- but not premenopausal women. Maturitas. 2005;52:119–26.
  6. Dennerstein L, Dudley EC, Hopper JL, et al. A prospective population-based study of menopausal symptoms. Obstet Gynecol. 2000;96:351–8.
  7. Greendale GA, Karlamangla AS, Maki PM. The menopause transition and cognition. JAMA. 2020;323:1495–6.
  8. Stuenkel CA, Davis SR, Gompel A, et al. Treatment of symptoms of the menopause: an Endocrine Society clinical practice guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2015;100:3975–4011.
  9. Rubinow DR, Johnson SL, Schmidt PJ, et al. Efficacy of estradiol in perimenopausal depression: so much promise and so few answers. Depress Anxiety. 2015;32:539–49.

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