Trauma e estresse pós-traumáticoQuando o passado insiste em voltar

Depois de uma experiência traumática, é esperado ficar abalado por um tempo. Quando as lembranças, o medo e o estado de alerta persistem e atrapalham a vida, pode se tratar de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), que tem tratamento.

Dra. Anna Martha Vaitses Fontanari · Psiquiatra · Leitura de 4 min

O que é

O TEPT pode surgir depois de uma exposição a morte, ferimento grave ou violência sexual, reais ou ameaçados. A pessoa pode ter vivido a situação, presenciado o que aconteceu com outra pessoa ou ficado sabendo que aconteceu com alguém próximo [1]. Violência interpessoal, acidentes, desastres e perdas violentas estão entre as experiências mais comuns.

Os sintomas se organizam em quatro grupos [1]:

  • Revivência: lembranças que invadem a mente, pesadelos e flashbacks, em que a pessoa sente como se a situação estivesse acontecendo de novo.
  • Evitação: fugir de lugares, pessoas, conversas ou pensamentos que lembram o trauma.
  • Mudanças nos pensamentos e no humor: culpa, vergonha, medo ou raiva persistentes, sensação de distanciamento das pessoas e dificuldade de sentir emoções positivas.
  • Estado de alerta: sobressaltos, irritabilidade, dificuldade para dormir e para se concentrar, sensação de perigo constante.

Para o diagnóstico, os sintomas precisam durar mais de um mês e trazer sofrimento ou prejuízo importantes [1]. Algumas pessoas também têm sintomas dissociativos: a sensação de estar fora do próprio corpo ou de que o mundo não é real. Em uma meta-análise, isso ocorreu em quase metade das pessoas com TEPT, sobretudo depois de traumas repetidos e prolongados, como abusos na infância [2].

Quão comum é

Em um levantamento da Organização Mundial da Saúde em 24 países, cerca de 4 em cada 100 pessoas (3,9%) tiveram TEPT em algum momento da vida. Entre quem passou por algum trauma, a proporção foi de 5,6% [3]. Ou seja, a maioria das pessoas expostas a um trauma se recupera, e o TEPT não é sinal de fraqueza.

O TEPT também acontece em crianças, inclusive pequenas, a partir de 1 ou 2 anos [4]. Muitas pessoas só procuram tratamento meses ou anos depois do trauma.

Como é feito o diagnóstico

O diagnóstico é feito na conversa clínica, com calma e no ritmo da pessoa: não é preciso contar todos os detalhes do que aconteceu para ser avaliado. A consulta também investiga a segurança da pessoa, incluindo pensamentos de morte, e condições que costumam acompanhar o TEPT, como depressão, outros transtornos de ansiedade e uso de álcool e outras substâncias [5].

Como é o tratamento em adultos

O tratamento começa idealmente logo após o diagnóstico e tem objetivos claros: manter a segurança, reduzir a revivência, a evitação e o estado de alerta, e recuperar o funcionamento no trabalho e nas relações [5].

  • Psicoterapias focadas no trauma são a primeira escolha para a maioria das pessoas. Entre elas estão a terapia cognitivo-comportamental focada no trauma, a terapia de processamento cognitivo, a exposição prolongada e o EMDR [6–8].
  • Antidepressivos da classe dos ISRS, como a sertralina, são uma alternativa eficaz. Em estudos que compararam os dois caminhos, os resultados foram parecidos, e a preferência da pessoa pesa na escolha [9,10].
  • Quando há depressão importante, que tira a energia e a concentração necessárias para a terapia, pode ser melhor começar pelo remédio e acrescentar a psicoterapia depois [5].

Quando o medicamento funciona, ele deve ser mantido por pelo menos seis meses a um ano, para reduzir o risco de recaída [11].

Em crianças e adolescentes

A primeira escolha é a psicoterapia focada no trauma, como a TCC focada no trauma, com participação dos pais ou cuidadores [13]. Diferentemente do que acontece em adultos, os ISRS não mostraram benefício para os sintomas de TEPT em crianças e adolescentes [14]. Os medicamentos ficam reservados para situações específicas, como problemas de sono persistentes ou depressão e ansiedade que não melhoram com a terapia [5,13].

Quando procurar ajuda

Procure avaliação se, mais de um mês depois de uma experiência traumática, as lembranças, os pesadelos, a evitação ou o estado de alerta continuam atrapalhando o sono, o trabalho, os estudos ou as relações. Nunca é tarde: o tratamento funciona mesmo quando o trauma aconteceu há muitos anos.

Texto informativo, elaborado a partir de revisões atualizadas da literatura e das diretrizes clínicas citadas nas referências. Não substitui a avaliação individual com um profissional de saúde.

Referências

  1. American Psychiatric Association. DSM-5-TR: manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. 5. ed., texto revisado. Porto Alegre: Artmed; 2023.
  2. White WF, Burgess A, Dalgleish T, et al. Prevalence of the dissociative subtype of post-traumatic stress disorder: a systematic review and meta-analysis. Psychol Med. 2022;52:1629–44.
  3. Koenen KC, Ratanatharathorn A, Ng L, et al. Posttraumatic stress disorder in the World Mental Health Surveys. Psychol Med. 2017;47:2260–74.
  4. Meiser-Stedman R, Smith P, Glucksman E, et al. The posttraumatic stress disorder diagnosis in preschool- and elementary school-age children exposed to motor vehicle accidents. Am J Psychiatry. 2008;165:1326–37.
  5. Ursano RJ, Bell C, Eth S, et al. Practice guideline for the treatment of patients with acute stress disorder and posttraumatic stress disorder. Am J Psychiatry. 2004;161(11 Suppl):3–31.
  6. Bisson J, Andrew M. Psychological treatment of post-traumatic stress disorder (PTSD). Cochrane Database Syst Rev. 2007;(3):CD003388.
  7. Hamblen JL, Norman SB, Sonis JH, et al. A guide to guidelines for the treatment of posttraumatic stress disorder in adults: an update. Psychotherapy (Chic). 2019;56:359–73.
  8. Schnurr PP, Hamblen JL, Wolf J, et al. The management of posttraumatic stress disorder and acute stress disorder: synopsis of the 2023 U.S. Department of Veterans Affairs and U.S. Department of Defense clinical practice guideline. Ann Intern Med. 2024;177:363–74.
  9. Zoellner LA, Roy-Byrne PP, Mavissakalian M, Feeny NC. Doubly randomized preference trial of prolonged exposure versus sertraline for treatment of PTSD. Am J Psychiatry. 2019;176:287–96.
  10. Williams T, Phillips NJ, Stein DJ, Ipser JC. Pharmacotherapy for post traumatic stress disorder (PTSD). Cochrane Database Syst Rev. 2022;3:CD002795.
  11. Davidson J, Pearlstein T, Londborg P, et al. Efficacy of sertraline in preventing relapse of posttraumatic stress disorder: results of a 28-week double-blind, placebo-controlled study. Am J Psychiatry. 2001;158:1974–81.
  12. Rothbaum BO, Price M, Jovanovic T, et al. A randomized, double-blind evaluation of D-cycloserine or alprazolam combined with virtual reality exposure therapy for posttraumatic stress disorder in Iraq and Afghanistan War veterans. Am J Psychiatry. 2014;171:640–8.
  13. Hoppen TH, Wessarges L, Jehn M, et al. Psychological interventions for pediatric posttraumatic stress disorder: a systematic review and network meta-analysis. JAMA Psychiatry. 2025;82:130–41.
  14. Robb AS, Cueva JE, Sporn J, et al. Sertraline treatment of children and adolescents with posttraumatic stress disorder: a double-blind, placebo-controlled trial. J Child Adolesc Psychopharmacol. 2010;20:463–71.

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