TDAHMuito além da distração

O transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) começa na infância e, em muitos casos, continua na vida adulta. Conhecer os sinais ajuda a buscar avaliação e tratamento.

Dra. Anna Martha Vaitses Fontanari · Psiquiatra · Leitura de 3 min

O que é

O TDAH é uma condição em que a pessoa tem, de forma persistente, três tipos de dificuldade: manter a atenção (desatenção), controlar a agitação do corpo (hiperatividade) e frear o impulso de agir antes de pensar (impulsividade). Não se trata de uma distração de vez em quando: para que se fale em TDAH, esses sinais precisam prejudicar de forma clara a vida escolar, social ou profissional, e os primeiros sintomas devem aparecer antes dos 12 anos [1].

Quão comum é

O TDAH está entre os diagnósticos psiquiátricos mais frequentes na infância. Ele atinge de 3 a 5 em cada 100 crianças e adolescentes, variando conforme o critério usado para o diagnóstico [2–4].

E não é coisa só de criança: em geral, o quadro persiste na vida adulta e afeta cerca de 3 em cada 100 pessoas da população geral (3,4%) [5,6].

Como se manifesta

Na infância, chamam atenção a desatenção excessiva, a hiperatividade e a impulsividade, com prejuízo na escola ou na convivência [1]. Em adultos, o quadro costuma aparecer como:

  • desatenção;
  • impulsividade;
  • inquietação;
  • dificuldade nas chamadas funções executivas, que são as habilidades de planejar, organizar e administrar o tempo.

Esses sintomas têm impacto importante no trabalho. Adultos com TDAH ficam desempregados com mais frequência e, quando trabalham, tendem a render menos. Também se envolvem mais em acidentes, o que contribui para uma taxa de mortalidade mais alta [7,8].

É comum que o TDAH venha acompanhado de outras condições: isso acontece em quase 4 de cada 10 pessoas [9]. As mais frequentes são o transtorno desafiador de oposição (um padrão persistente de desobediência e hostilidade), problemas de conduta, depressão, ansiedade, tiques, dificuldades de aprendizagem e dificuldades cognitivas [10].

Como é feito o diagnóstico

O diagnóstico é clínico. Ou seja, ele é feito pelo profissional a partir da história e da observação dos sintomas, considerando quando eles começaram e o prejuízo que causam no dia a dia [1].

Como é o tratamento

Diretrizes internacionais recomendam, para crianças a partir dos cinco anos, combinar estratégias sem medicamento, como a psicoterapia, com medicamentos estimulantes, como o metilfenidato, que são considerados a primeira escolha [11–16]. Em adultos, também há opções: os estimulantes seguem como primeira linha, e existem medicamentos não estimulantes [11,12].

No SUS, o protocolo nacional para TDAH prevê intervenções psicossociais, como a psicoeducação (aprender sobre o próprio diagnóstico), estratégias comportamentais e a terapia cognitivo-comportamental (TCC) [17].

A escolha do tratamento é sempre individual e deve ser construída junto com o médico que acompanha você ou seu filho.

Quando procurar ajuda

Vale buscar avaliação quando a desatenção, a agitação ou a impulsividade são persistentes e trazem prejuízo real na escola, no trabalho ou nas relações. Também é importante procurar ajuda se, junto com esses sintomas, surgirem tristeza persistente, ansiedade intensa ou outras dificuldades emocionais, que com frequência acompanham o TDAH [10].

Texto informativo, adaptado das notas técnicas que escrevi para o NatJus do TelessaúdeRS. Não substitui a avaliação individual com um profissional de saúde.

Referências

  1. American Psychiatric Association. DSM-5: manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed; 2014.
  2. Scahill L, Schwab-Stone M. Epidemiology of ADHD in school-age children. Child Adolesc Psychiatr Clin N Am. 2000;9(3):541–55.
  3. Polanczyk G, Rohde LA. Epidemiology of attention-deficit/hyperactivity disorder across the lifespan. Curr Opin Psychiatry. 2007;20(4):386–92.
  4. Schmidt S, Petermann F. Developmental psychopathology: attention deficit hyperactivity disorder (ADHD). BMC Psychiatry. 2009;9(1):58.
  5. Bukstein O. Attention deficit hyperactivity disorder in adults: epidemiology, pathogenesis, clinical features, course, assessment, and diagnosis. UpToDate; 2020.
  6. Barkley RA, Fischer M, Smallish L, Fletcher K. The persistence of attention-deficit/hyperactivity disorder into young adulthood as a function of reporting source and definition of disorder. J Abnorm Psychol. 2002;111(2):279.
  7. Dalsgaard S, Østergaard SD, Leckman JF, Mortensen PB, Pedersen MG. Mortality in children, adolescents, and adults with attention deficit hyperactivity disorder: a nationwide cohort study. Lancet. 2015;385(9983):2190–6.
  8. Biederman J, Mick E, Faraone SV. Normalized functioning in youths with persistent attention-deficit/hyperactivity disorder. J Pediatr. 1998;133(4):544–51.
  9. Jensen PS. A 14-month randomized clinical trial of treatment strategies for attention-deficit/hyperactivity disorder. Arch Gen Psychiatry. 1999;56(12):1073–86.
  10. Jensen PS, Hinshaw SP, Kraemer HC, Lenora N, Newcorn JH, Abikoff HB, et al. ADHD comorbidity findings from the MTA study: comparing comorbid subgroups. J Am Acad Child Adolesc Psychiatry. 2001;40(2):147–58.
  11. National Institute for Health and Care Excellence. Attention deficit hyperactivity disorder: diagnosis and management [Internet]. 2019. Disponível em: https://www.nice.org.uk/guidance/ng87
  12. Greenfield B, Hechtman L. Treatment of attention deficit hyperactivity disorder in adults. Expert Rev Neurother. 2005;5(1):107–21.
  13. Subcommittee on Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder; Steering Committee on Quality Improvement and Management. ADHD: clinical practice guideline for the diagnosis, evaluation, and treatment of attention-deficit/hyperactivity disorder in children and adolescents. Pediatrics. 2011;128(5):1007.
  14. Jain U, Hechtman L, Quinn D, Turgay A, Yaremko J, Mutch C. Canadian Attention Deficit Hyperactivity Disorder Resource Alliance (CADDRA): Canadian ADHD practice guidelines. Toronto: CADDRA; 2006.
  15. Bolea-Alamañac B, Nutt DJ, Adamou M, Asherson P, Bazire S, Coghill D, et al. Evidence-based guidelines for the pharmacological management of attention deficit hyperactivity disorder: update on recommendations from the British Association for Psychopharmacology. J Psychopharmacol. 2014;28(3):179–203.
  16. Pliszka S; AACAP Work Group on Quality Issues. Practice parameter for the assessment and treatment of children and adolescents with attention-deficit/hyperactivity disorder. J Am Acad Child Adolesc Psychiatry. 2007.
  17. Brasil. Ministério da Saúde. Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (CONITEC). Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade [Internet]. 2022. Disponível em: https://www.gov.br/conitec/pt-br/midias/protocolos/portariaconjuntan14pcdttranstornododeficitdeatencaocomhiperatividadetdah.pdf

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