O que é
Os transtornos de ansiedade têm dois ingredientes principais. O medo é a reação a um perigo que parece imediato, seja ele real ou imaginado. A ansiedade é a antecipação de um perigo no futuro [1].
O ataque de pânico é uma forma intensa de medo: de repente, surge um medo ou desconforto muito forte, que aumenta em poucos minutos e vem acompanhado de sintomas no corpo [1].
No transtorno do pânico, esses ataques se repetem de forma inesperada, e a pessoa passa a viver com medo de ter novas crises, podendo começar a evitar lugares e situações. No transtorno de ansiedade generalizada (TAG), a preocupação é constante e exagerada e envolve várias áreas da vida, como trabalho e relacionamentos, junto com sintomas físicos, como palpitações [1].
Quão comum é
Os transtornos de ansiedade são os transtornos mentais mais comuns: dependendo do estudo, de 5 a 31 em cada 100 pessoas terão algum deles ao longo da vida [2–4]. No Brasil, estudos estimam que o TAG afete cerca de 14 em cada 100 pessoas na população geral e 22 em cada 100 idosos [5,6]. O transtorno do pânico atinge cerca de 5 em cada 100 pessoas ao longo da vida (entre 4,7% e 5,1%) [7,8].
Muitas vezes, esses quadros não são reconhecidos nem tratados. Junto com a depressão, os transtornos de ansiedade estão entre as condições que mais tiram anos de vida saudável das pessoas no mundo: só em 2020, foram estimados 44,5 milhões de anos de vida saudável perdidos por causa deles [9].
São condições que tendem a ser duradouras e costumam começar no início da vida adulta. No TAG, a idade mediana de início é por volta dos 31 anos [10]. Pessoas com transtornos de ansiedade também têm mais risco de desenvolver outras doenças, como asma, síndrome do intestino irritável, depressão e uso problemático de substâncias [11].
Ter familiares com transtornos de ansiedade ou do humor é um dos principais fatores de risco [12–14], e a história familiar também se associa a quadros mais persistentes e com mais prejuízo [15]. Viver eventos muito estressantes, especialmente abuso na infância, também aumenta o risco [14,16], assim como solidão, baixa escolaridade e uma criação marcada por relações difíceis com os pais [17,18]. Doenças crônicas, como problemas cardíacos, diabetes, asma e obesidade, também entram nessa lista [12,19].
Como se manifesta
No transtorno do pânico, o diagnóstico exige ataques de pânico repetidos e inesperados, seguidos de pelo menos um mês de preocupação com novas crises ou com suas consequências, às vezes com mudanças de comportamento para tentar evitá-las [1].
No TAG, a ansiedade e a preocupação são excessivas, difíceis de controlar e estão presentes na maioria dos dias por pelo menos seis meses, acompanhadas de pelo menos três destes sintomas [1]:
- inquietação ou sensação de nervosismo;
- cansaço;
- dificuldade de concentração;
- irritabilidade;
- tensão muscular;
- problemas de sono.
Em ambos os casos, os sintomas precisam causar sofrimento importante ou atrapalhar a vida [1].
Como é feito o diagnóstico
Na consulta, profissionais de saúde costumam fazer perguntas simples como estas [20]:
- Você teve alguma crise em que, de uma hora para outra, se sentiu muito assustado, ansioso e desconfortável?
- Você diria que está com os nervos à flor da pele, muito preocupado e ansioso com tudo?
- Ficar desconfortável e ansioso perto de outras pessoas é um problema para você?
Uma resposta positiva não fecha o diagnóstico, mas indica que vale investigar melhor [20].
A avaliação também procura descartar outras causas para os sintomas, como efeito de substâncias ou de medicamentos, problemas na tireoide e doenças do coração, do pulmão ou neurológicas. Por isso, o médico pergunta sobre os remédios em uso e o consumo de álcool, cafeína e outras substâncias, e pode pedir alguns exames de sangue [21,22].
Como é o tratamento
Nem todo mundo precisa começar com medicamento. A decisão depende da gravidade, do impacto na vida e da preferência de cada pessoa.
No TAG, as diretrizes recomendam combinar mudanças no estilo de vida, como atividade física e cuidados com o sono, psicoterapia e, quando indicado, medicamentos [21–24].
Quando há indicação de remédio, os antidepressivos da classe dos ISRS (inibidores seletivos da recaptação de serotonina) são a primeira escolha tanto no pânico quanto no TAG, por combinarem boa eficácia e boa tolerância [21,25–27].
O efeito não é imediato. Mesmo com a dose ajustada, de 30 a 50 em cada 100 pessoas respondem ao primeiro tratamento após oito semanas. Quando a resposta é parcial, o médico pode aumentar a dose e reavaliar [22,24,28].
Calmantes da classe dos benzodiazepínicos (como o clonazepam e o diazepam) agem rápido, mas podem causar dependência e abstinência. Por isso, devem ser usados apenas por pouco tempo, no máximo cerca de quatro semanas, em sintomas intensos [22,29]. Usados por longos períodos, podem até piorar a ansiedade e a depressão [29].
Depois da melhora, recomenda-se manter o tratamento por pelo menos oito meses no pânico [22] e por pelo menos um ano no TAG [30,31]. Os antidepressivos não devem ser interrompidos de uma vez: a redução gradual, combinada com o médico, ajuda a evitar sintomas de retirada [32,33].
Quando procurar ajuda
Procure avaliação se as crises de medo se repetem, se você começou a evitar lugares ou situações por medo de passar mal, ou se a preocupação está tomando conta do seu dia. Se a ansiedade vier acompanhada de pensamentos de morte, busque ajuda logo: o CVV atende pelo 188, de graça e 24 horas.
Texto informativo, adaptado das notas técnicas que escrevi para o NatJus do TelessaúdeRS e do Protocolo Clínico Estadual de Ansiedade. Não substitui a avaliação individual com um profissional de saúde.
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